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CLIMA
Publicado em
29/09/2026 19h03
Pesquisadores debateram implicações do overshoot. Foto: Lucas Landau
Áreas estratégicas como energia, trabalho e tecnologia deverão ser impactadas no Brasil com o aumento médio da temperatura global ultrapassar o limite de 1,5oC na temperatura global. Especialistas em diferentes áreas do conhecimento enfatizaram os perigos e a necessidade urgente de ação durante o seminário ‘Ciência e Negociação Climática Rumo à COP31’, realizado nesta terça-feira (29), no Rio de Janeiro (RJ). A programação abordou ainda a interface entre política e ciência, tecnologia e inovação, e o legado da COP 30 e os desafios da COP31.
“Cada ano, cada fração [de temperatura], cada ação importa”, sintetizou Thelma Krug ao enfatizar a importância de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Krug é coordenadora do Conselho Científico da COP30 e do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima da Organização Meteorológica Mundial e foi vice-presidente do IPCC entre 2015 e 2023, resgatou o contexto do conceito de overshoot, que é a ultrapassagem temporária do aumento médio global da temperatura de 1,5oC, comparado aos níveis pré-industriais.
O Acordo de Paris, de 2015, estabeleceu o compromisso internacional para limitar o aumento da temperatura global “bem abaixo” dos 2°C e em envidar esforços para limitar o aumento a 1,5°C. Este limite foi reforçado em 2018 por meio do relatório especial do IPCC sobre o Aquecimento Global de 1,5°C, que diferenciou os impactos que poderiam ocorrer entre os dois limites de temperatura.
Contudo, no início deste mês um novo relatório publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ‘Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return‘, reconhece, pela primeira vez, que o planeta vai ultrapassar o limite de 1,5°C. Além disso, o documento estabelece que, para que o aquecimento global ainda seja reversível, não poderá exceder 1,8oC.
“Esse relatório é uma virada de chave. A preocupação agora é que essa ultrapassagem seja a menor e pelo menor tempo possível”, explicou Krug.
Para o pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo, os impactos do aumento progressivo do aquecimento global não aparecem de forma abrupta. Cada décimo de aumento na temperatura média global implica aumento da intensidade e da frequência de extremos climáticos, como calor extremo, secas, chuvas intensas, além da disponibilidade hídrica e de impactos na produtividade, na saúde, na infraestrutura e energia.
Pontualmente, o planeta já ultrapassou o limite de 1,5oC em alguns meses isolados, como em fevereiro de 2016, dezembro de 2023, fevereiro de 2024 e agosto de 2026. “Isso mostra que estamos brincando com esse limite há muito tempo”, afirmou Marengo.
Para o Brasil, um país tropical altamente vulnerável às consequências do aquecimento global, os impactos implicam reorganização de sistemas de áreas como energia, trabalho, infraestrutura e inovação, que precisarão se adaptar para funcionar sob um clima mais quente e variável. “O que está em jogo são setores estratégicos”, falou sobre os impactos gradativos.
O pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Alisson Barbieri, adicionou ao debate questões de reconfiguração do trabalho, do envelhecimento da população e da mobilidade humana. Segundo ele, em algumas regiões do país em determinados períodos do ano, como no Norte, já não é possível trabalhar ao ar livre entre 10h e 15h.
Ciência e negociações
O coordenador de assuntos científicos e tecnológicos do Departamento de Clima do Ministério das Relações Exteriores e membro do Comitê Executivo de Tecnologia da Convenção do Clima, Pedro Ivo Ferraz da Silva, apresentou panorama histórico relacionando as evidências providas por órgãos científicos, como o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), com as negociações climáticas. O diplomata destacou como ocorrem os fluxos de informação no regime internacional e quais as perspectivas para o Sétimo Ciclo de Avaliação do IPCC em meio às indefinições sobre o cronograma de publicação dos relatórios previstos para os próximos anos para que possam ser utilizados para o segundo balanço global (Global Stocktake), previsto para 2028, que avalia o progresso do combate à mudança do clima.
