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Nise da Silveira: a médica que revolucionou os tratamentos da saúde mental no Brasil

Por · 07/10/2026 às 01:53 · Atualizado em 07/10/2026 às 01:53 · 5 min

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CIÊNCIA DELAS

Psiquiatra brasileira confrontou tratamentos agressivos e encontrou na arte novas formas de compreender pessoas com transtornos mentais


Publicado em

06/10/2026 18h28

Nise da Silveira: a médica que revolucionou os tratamentos da saúde mental no Brasil

Foto: Arquivo Nacional

Em um tempo em que pessoas com transtornos mentais eram frequentemente isoladas e submetidas a tratamentos agressivos, uma médica brasileira decidiu seguir na contramão de sua época. Para Nise da Silveira, aqueles que eram chamados de loucos não deveriam sofrer novos traumas dentro dos hospitais, mas ser tratados como seres humanos, com histórias, sentimentos e formas próprias de se relacionar com o mundo. 

Nascida em 1905, em Maceió, Alagoas, Nise entrou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 16 anos, ela era a única mulher de sua turma. Depois de se formar, mudou-se para o Rio de Janeiro e entrou no serviço público como psiquiatra, mas sua carreira foi interrompida em 1936, quando foi afastada do cargo. O período fez com que Nise se distanciasse da medicina até conseguir retornar ao trabalho em 1944. 

Ao voltar à psiquiatria, Nise encontrou hospitais onde métodos como eletrochoques, insulinoterapia e lobotomia eram utilizados no tratamento de pacientes. Ela se recusou a adotar essas práticas, por considerar agressivas e capazes de provocar ainda mais sofrimento em pessoas que já viviam situações de fragilidade. Ao invés de tentar controlar comportamentos por meio da violência, defendia uma relação no cuidado, no afeto e na compreensão dos padrões de cada indivíduo.  

Essa posição destoava tanto da psiquiatria praticada naquele período que Nise enfrentou muita resistência e críticas de colegas que tratavam suas ideias como algo fora da realidade. Em um ambiente no qual os próprios pacientes eram definidos pelo rótulo da loucura, a médica também foi rotulada por insistir que aquelas pessoas podiam criar vínculos, se expressar e preservar aspectos importantes de sua personalidade. 

Em 1946, Nise assumiu a Seção de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, hoje conhecido como Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, e começou a transformar um setor pouco valorizado do hospital. Pintura, desenho e modelagem passaram a ocupar um espaço importante no cuidado, ajudando a popularizar o uso terapêutico da arte no Brasil.  

Mais do que oferecer uma atividade aos pacientes, Nise percebeu que aquelas produções podiam revelar sentimentos e experiências que muitas vezes não conseguiam ser expressos pela fala. Ela passou a observar símbolos, formas e imagens que apareciam repetidamente nas obras.  

Para Nise, essas produções funcionavam como caminhos para compreender o inconsciente, permitindo acompanhar mudanças no mundo interior de cada pessoa sem forçá-la a explicar em palavras aquilo que sentia. A arte não era apenas uma distração, mas uma forma de comunicação e uma ferramenta para conhecer melhor quem estava por trás do diagnóstico.  

Em 1952, a riqueza desses trabalhos deu origem ao Museu de Imagens do Inconsciente, criado para preservar e estudar as produções dos ateliês. As obras passaram a ser observadas não como simples desenhos de pacientes psiquiátricos, mas como registros capazes de ajudar pesquisadores a compreender processos psíquicos e acompanhar trajetórias individuais.  

Uma dessas trajetórias foi a de Fernando Diniz, que começou a frequentar as sessões de terapia em 1949. Quando chegou ao ateliê, quase não levantava a cabeça e falava tão baixo que mal era ouvido, mas encontrou na criação artística uma forma de expressão e produziu, ao longo da vida, milhares de trabalhos entre pinturas, modelagens e xilogravuras. Sua obra tornou-se uma das mais conhecidas do acervo do museu e ajuda a mostrar, de forma concreta, o que Nise defendia.  

Nise manteve essas ideias com firmeza durante toda a carreira. Em vez de adaptar sua atuação ao que era mais aceito, questionou práticas consolidadas, enfrentou resistência dentro das instituições e defendeu uma psiquiatria que enxergasse a pessoa antes da doença. Em 1956, criou também a Casa das Palmeiras, voltada a pessoas que deixavam instituições psiquiátricas e precisavam reconstruir vínculos com a vida fora dos hospitais. 

Com o passar das décadas, um trabalho que inicialmente provocava desconfiança passou a ganhar reconhecimento no Brasil e no exterior. Nise participou de debates internacionais e tornou-se referência para profissionais interessados em novas formas de compreender o sofrimento psíquico. Suas pesquisas também ajudaram a ampliar a discussão sobre a importância da expressão artística, do afeto e da liberdade no cuidado em saúde mental. 

Nise morreu em 1999, aos 94 anos, mas seu trabalho continuou influenciando a psiquiatria, a terapia ocupacional e os movimentos em defesa de um tratamento humanizado. Em 2022, o legado foi oficialmente eternizado após seu nome ter sido inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. 

Hoje, Nise da Silveira é reconhecida como um dos principais nomes da psiquiatria brasileira, com influência que ultrapassou as fronteiras do País. Sua contribuição foi além de propor novas técnicas, mas sim de olhar para pessoas que a sociedade muitas vezes reduzia ao rótulo de loucas. Mostrou que ainda existiam afetos, criatividade, histórias e padrões a serem descobertos. A médica que enfrentou perseguição política e foi desacreditada por defender ideias consideradas radicais, transformou e se tornou referência nos cuidados à saúde mental no Brasil e no mundo. 

Ciência e Tecnologia

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