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CIÊNCIA DELAS
Publicado em
29/09/2026 14h36
Foto: Antonio Neto/arquivo Embrapa
Quando o interesse pela ciência começa? Geralmente, ainda na infância, com uma pergunta, com a curiosidade em saber o porquê das coisas, responde Mariangela Hungria da Cunha, ganhadora do Nobel da Agricultura e uma das cem pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time. Ela mesma foi uma criança questionadora. Com o passar dos anos, a pesquisadora conseguiu ter uma certeza: a ciência tem o poder de mudar vidas.
Hoje, sendo a primeira em número de publicações de artigos científicos sobre agronomia (mais de 500) e com dezenas de prêmios conquistados, Mariangela tem um legado que transformou a agricultura do Brasil e do planeta. O estudo produzido por ela maximiza a contribuição de micro-organismos nas lavouras, substituindo total ou parcialmente os fertilizantes químicos. Esses micro-organismos devolvem a vida ao solo e regeneram as áreas de cultivo, o que aumenta duas ou três vezes a produção sem derrubar árvores.
Mariangela decidiu ainda criança que queria ser cientista. No interior de São Paulo, onde morava, sua avó, uma professora de ciência, se atentou à curiosidade da menina, a ajudou a fazer experiências no quintal de casa e explicou para ela o que sabia. A neta recebeu de presente um livro sobre a vida dos microbiologistas, cientistas especializados em bactérias, vírus, fungos e protozoários, e, desde então, teve a certeza da carreira que iria seguir.
Ela se mudou para a cidade de São Paulo com a família e teve a oportunidade de acessar laboratórios de biologia. O que alimentou ainda mais o seu sonho. A então futura cientista começou a cursar engenharia agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP). “Era uma profissão muito mal vista à época. A agricultura não era considerada importante por parte da sociedade”, comenta.
A cientista conseguiu uma bolsa de estudos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), fez doutorado a convite de Johanna Döbereiner. A engenheira agrônoma brasileira é pioneira em biologia do solo: “Ela era a mulher mais poderosa da minha área no Brasil e até internacionalmente”. Sem demora, começou a trabalhar na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), onde teve seu primeiro contato com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Mariangela tinha graduação, mestrado e doutorado, mas sentia falta de uma experiência internacional. Então, em 1988, com a ajuda do CNPq, conseguiu fazer pós-doutorado nos Estados Unidos. Em 1991 retornou ao Brasil, se transferiu para Londrina (PR) e foi trabalhar na Embrapa Soja, onde atua até hoje.
Quando regressou ao Brasil, recomeçou do zero. E se fez um questionamento: por onde deveria começar? Então, foi atrás de projetos, e o CNPq foi o primeiro a abrir as portas, ajudando com recursos financeiros para pesquisar. “Eu posso falar que mais de 90% dos equipamentos que eu tenho no laboratório foram adquiridos com ajuda do CNPq.”
No entanto, ainda enfrentava resistência sobre sua pesquisa, pois os únicos resultados que existiam no mundo eram na Europa e no norte dos Estados Unidos. Foram necessários quatro anos para provar que sua pesquisa daria certo em solo tropical. Atualmente, suas descobertas foram aplicadas em mais de 40 milhões de hectares no Brasil. Em 2025, Mariangela recebeu o Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize), considerado o Nobel da Agricultura, o mais importante do setor.
Durante toda sua trajetória na ciência também foi mãe de duas meninas e enfrentou preconceito e barreiras. Por não conseguir comparecer em palestras e viagens, seu refúgio foi a escrita. “Eu tenho certeza de que eu não teria escrito tanta coisa se eu não tivesse uma filha com necessidades especiais”, conclui. E afirma que uma das coisas que mais deu destaque aos seus trabalhos foram os projetos escritos e capítulos de livros.
Líder do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia desde 2014, Mariangela faz questão de ressaltar o amor pelo País e a gratidão por conseguir fazer pesquisas que impactam a sociedade.
